27 de maio de 2020

a pensar sobre o mundo

fotografia: Beatriz Geada

Hoje em dia, muitas pessoas escolhem ser do contra, mas não sabem bem porquê. Não se questionam, não olham para a realidade que as rodeia. Já foram muitos os seres humanos com que me cruzei que me disseram algo como “não sou feminista” ou “odeio feministas”. Quando o recente filme sobre a Harley Quinn, “Birds of Prey”, saiu, li alguns comentários do género “não deveriam inserir a temática feminista dentro do universo dos super-heróis. Já chega de quererem colocar este tema em todo o lado”. Dentro da minha cabeça, claro, percorrem logo milhares de questões que devo colocar, mas a única que expresso é “porquê?”. Porque somos contra a igualdade? Porque escolhemos ser contra a felicidade dos outros? Como é que um simples filme sobre uma super heroína querer a sua emancipação e existir sem o Joker pode causar confusão a alguém? É tempo de analisar os pilares da sociedade e questões que estão enraizadas.Eu estudei, tirei a carta, escolho a minha roupa todos os dias, escolho o meu futuro, posso votar, posso escolher se quero casar e com quem quero casar, posso ser a líder, posso ser eu a tomar as decisões, porque o corpo é meu, a escolha é minha. Mas só o faço graças ao feminismo e a quem luta por ele todos os dias. E o que mencionei são apenas algumas das oportunidades de escolha num universo complexo de restrições. Apesar de tudo isto, não saio à rua com a roupa que quero. Se assim fosse, vestia mais vezes saias e vestidos, passeava de saltos altos sem medos. Sem pensar que vou descer a rua e vou ouvir um piropo que vai andar na minha cabeça o dia todo e me vai fazer torcer todos os órgãos que tenho dentro do corpo porque fiquei enojada. Não me lembro de uma vez que não tenha acontecido - mesmo quando era mais nova. Eu posso fazer tanta coisa, efetivamente, mas será que, ao fazê-lo, não me vão tentar humilhar? 10/10. E perco a minha liberdade.
Culturalmente, politicamente, democraticamente e socialmente, é um trabalho em progresso. Todos temos diferentes backgrounds, experiências e realidades. Sofremos com descriminação baseada no género, cor, fisionomia, demografia, cultura, religião e tantos outros fatores. Sofremos com violência sexual, agressão, intimidação, sexualização e assédio. Quando me dizem “this is a man’s world”, sou a primeira a dizer “wouldn't be nothing without a woman or a girl”. Porque acredito na igualdade.Este é o momento de sermos uns pelos outros, de ouvirmos e compreendermos diferentes realidades, de percebermos que só com uma corrente humana positiva e uma luta constante pela igualdade (reparar o sistema para que ofereça igual acesso para as ferramentas e oportunidades) é que podemos viver num planeta mais seguro e feliz. O lugar da mulher é onde ela quiser. Serão motivos suficientes para não se ser do contra? 

18 de maio de 2020

eternal sunshine

Acordei às seis e às sete estava sentada debaixo da árvore. Às oito tinha uma lagarta a subir o vestido.  Acho que ela queria viajar comigo, hospedada no meu vestido. Às oito e um quarto tentei tocar-lhe uma canção. Às oito e meia, deixei-a ser livre. 


fotografia: florescer 

9 de abril de 2020

ESTUDOS DE LUZ

Na luz e na sombra, a vida vive-se vivendo. 
Não há nada mais perfeito do que sabermos que somos imperfeitos - mas o que é a perfeição mesmo? 


fotografia: Diogo Ribeiro

VANILLA BABY

Conto aqui uma coisa em primeira mão - em segunda, para quem me conhece bem. Tenho o coração mole, como a manteiga num dia de verão. Desde muito nova, na verdade. Era algo que escondia. Quando estava triste, era bastante melancólica. Chorava baixinho com as coisas que me deixavam triste, ficava no quarto a pensar no que seria o futuro, ficava nervosa com o que podia acontecer. Quando sentia, era de copo cheio. Ficava preocupada com os testes, com ter boas notas. Ficava preocupada se alguém tivesse caído no recreio. Ficava preocupada se pisasse a pata do meu cão sem querer. Todas as emoções que nos tornam tão humanos, eu tinha-as ali, a fervilhar baixinho. E ainda tenho, mas hoje em dia não escondo. Gosto deste certificado de ser humano. Nos tempos que correm, é algo complicado de encontrar, e costumo identificar-me com quem anda de mãos dadas com os sentimentos e a transparência, respeitosamente, claro. Gosto de quem sente. Também gosto de quem sente e não o sabe mostrar, às vezes também sou assim. Por vezes, precisamos apenas de exemplos. Alguém que nos mostre que o podemos fazer sem medos. Para podermos ver que traz felicidade e evolução e ficarmos motivados a ser luz. Faz bem aos outros, mas, principalmente, a nós próprios.


fotografia: florescer 

5 de abril de 2020

CINCO ARTISTAS MUSICAIS FEMININAS # 2

colagem feita por mim 

Estava a rever as minhas publicações antigas e encontrei a publicação "Cinco Artistas Musicais Femininas", que escrevi para comemorar o dia da mulher, o ano passado. Pensei para mim: "mas porque é que não escrevo mais sobre isto?". Assim surgiu uma nova rubrica, que espero alimentar sempre que tiver ingredientes suficientes! Decidi, também, criar uma playlist no Spotify onde coloco as minhas músicas preferidas das artistas publicadas.




Billie Marten 

A Billie Marten foi uma das minhas descobertas mais felizes do último ano. Assim que ouvi pela primeira vez, agarrei-me a ela e não a larguei mais. Foi mesmo dos abraços musicais mais saborosos que já tive! Já me inspirou a criar imensas publicações, a decorar o meu quarto, a vestir-me. O poder da música surpreende-me cada vez mais. Entrou muito rapidamente no meu top 10 e espero, um dia, vê-la atuar ao vivo!

Tainá 
Conheci a música da Tainá graças a uma amiga. Adorei a voz sonhadora, as letras tão carinhosas e cheias de sabedoria. Depois conheci a Tainá nas gravações do videoclip da "Perdido", do meu amigo Tomás Adrião. Ela foi tão amorosa, leve e com uma energia tão tranquila, que ouvi-la tornou-se numa magia ainda maior. A "Senti" é especial para mim, não sei bem explicar porquê. A Tainá dança com a música e com a voz, com os pés descalços, num dia de sol, com borboletas à volta. E nós dançamos também, vamos nesse embalo.

girl in red 
Ouvir girl in red faz-me sentir num festival de verão, ao final da tarde. Faz-me lembrar aquelas amizades onde se anda de bicicleta no meio da estrada e se ri, tudo em câmara lenta. Bom para se dançar e abanar os cabelos. É calminha e adoro as letras também.

Clairo 

Há qualquer coisa na Clairo que me faz sentir ingénua. Faz-me sentir que vesti a minha roupa mais simples, sentei-me na cama e comecei a escrever num caderno os meus pensamentos mais profundos mas ao mesmo tempo mais infantis. Faz-me lembrar a escola secundária e os tempos em que o tempo é jovem. Adoro a Bags e a Hello?, que é em colaboração com o Rejjie Snow.

maye

Ainda não há muito que a maye nos possa dar, mas o que há, adoro. São três músicas que me deixam completamente relaxada e flutuante. Num estilo dreamy e muito cor de rosa. Estou ansiosa por conhecer mais. Sei que é pouco, mas mesmo assim, quero mais! Conheci-a através da Tú e apaixonei-me logo, principalmente porque ultimamente tenho adorado ouvir espanhol.


Espero que gostem e, se quiserem, partilhem comigo artistas femininas que façam parte das vossas playlists!

sunflower, vol.6

Algures no mundo, o sol está a nascer e alguém está a abraçar os primeiros raios. Algures no mundo, a noite está a cair e são as estrelas que roubam o protagonismo a todas as luzes que se acendem para apagar o escuro. Vamos andando em sentido contrário ao do movimento de translação da terra, fugimos das voltas e estamos numa corrida infinita. Menos quando vemos o sol nascer. Aí, paramos. Respiramos. Contemplamos. E seguimos. 



fotografia: florescer 

31 de março de 2020

Hard liquor mixed with a bit of intellect

Quando era mais nova, no meu imaginário, sabia que um dia iria criar uma máquina do tempo. Já que é possível inventar de tudo, nunca me pareceu descabido mexer com o espaço e com o tempo. Seria apenas mais uma engenhoca, no meio de tantas. Isso, ou esperar que um senhor com o cabelo cinzento e despenteado o fizesse, e, pela altura em que fosse mais velha, já estaria pronta para a usar. Essa altura seria, portanto, agora. Mas não aconteceu. Ninguém criou essa tal máquina, nem mesmo quando mais precisamos delas. 

A vida tem-me ensinado que há muita coisa que não consigo mudar, por maior que seja a minha vontade, por maior que seja a necessidade. Fechar os olhos com tanta, tanta, força, que as pestanas chegam a doer - só para os abrir e a realidade ser diferente. 

Dei por mim a olhar para fotografias e a sentir exatamente o que senti no momento em que foram tiradas. Sem querer, descobri ali a minha máquina do tempo - com a excepção de que não foi necessário sair do sítio, nem realmente desafiar leis científicas. Sentada no sofá, olhei para a foto e imaginei-me naquele dia, vivi-o de novo. Dou por mim a fazê-lo vezes sem conta. A ser a heroína que imaginei e precisei, apenas com uma receita tão simples. O saudosismo por vezes é a nossa salvação.


fotografias: Developed Grain 

28 de fevereiro de 2020

o mergulho de Van Gogh

Não sei se sabem, mas mergulhar é uma das minhas ações favoritas. Entre comer, respirar, sentir o sol ou ouvir o mais simples som, encontra-se, também, o mergulhar. Na água ou na arte, o que importa é sentir o toque no corpo. A água pode arrepiar, a arte arrepia e deixa-nos uma sensação duradoura, quer na pele, quer dentro de nós. Entrei, por um bocadinho, no universo do Van Gogh. Já o faço há algum tempo, confesso. A minha primeira experiência com a arte deste homem maravilhoso foi quando era pequenina - sempre me interessei por pintura - e tentei recriar a famosa A Noite Estrelada, sem grande sucesso.  Depois fui deixando que entrasse nas minhas veias, como um veneno lento. Vi o filme "A Paixão de Van Gogh" e também o "No portal da eternidade", que me deixaram ainda mais familiarizada com o pintor e com a sensação de que o teria de salvar e proteger. Ontem, tive a oportunidade de visitar a exposição imersiva, em Belém. Esperava um bocadinho mais, porque idealizei que fosse igual à exposição no resto da Europa, onde existem também projecções no chão e no tecto, dando mesmo a ideia de imersão total. E se é para mergulhar, é para mergulhar. No entanto, passei um bom bocado. É sempre maravilhoso lembrar-me daquilo que mais me inspira. Não vos conto mais, não quero ser spoiler de exposições!