a forma como vemos o mundo

4 de outubro de 2018



Ainda me lembro de como era conhecer o mundo sem ser através de um ecrã de telemóvel. Sem passar os dedos de forma veloz num suporte de vidro inanimado. Sem ter acesso imediato, quando quisesse, onde quisesse. As culturas eram quase como algo místico, pertences do seu país que estavam dentro de cofres, inalcançáveis pelos forasteiros. Se queria conhecer mais, tinha de procurar bem, estudar, pesquisar com a ajuda das dezenas de livros que tinha em casa sobre o mundo. Fascículos que adorava colecionar sobre o universo, sobre o mundo, sobre tudo. Perdia-me nas páginas grossas que cheiravam a papel antigo, um dos melhores cheiros de sempre.
Os livros foram os meus melhores amigos de infância e a minha forma principal de saber o que está lá fora, para além das abstratas fronteiras que separam o nosso país do mundo. As ilustrações ajudavam-me a expandir a imaginação e a tentar criar uma imagem real com o que via, quase como uma magia em que de uma folha surgia um cenário real. As fotografias confirmavam o que imaginava. E, assim, construí a imagem que tenho do mundo. 

No quarto ano tive o meu primeiro telemóvel, mas em nada se parecia com um smart phone. Era um telemóvel mais pesado do que o peso total das minhas mãos e os meus pés, juntos. Um telemóvel que só me entretinha através do jogo Bounce. No ensino básico, acredito que no oitavo ano, tive o meu primeiro telemóvel touch. Usava-o principalmente para fotografar. Hoje em dia, pouco mudou. Os usos que faço deste pequeno aparelho não mudaram muito mas tornaram-me mais perto do mundo, com os seus pontos positivos e negativos, claro. 

O telemóvel tem sido a principal ferramenta para sair de casa sem passar da ombreira da porta principal. Conhecer pessoas, dar uma volta ao mundo sem precisar de 80 dias, tudo à distância de um click. De qualquer das formas, adorava que as coisas não se processassem desta forma e que tivessem o seu equilíbrio, algo com que me debato muito no meu dia a dia. Procuro afastar-me desta forma tão próxima que temos uns dos outros. Há um episódio de How I Met Your Mother  em que o Ted tem um encontro marcado com uma rapariga. Contrariando todas as suas ações passadas, o Ted promete a ele próprio que não a iria pesquisar nas redes sociais, de forma a puder descobrir por si próprio como ela era, sem truques e sem condicionamentos. Se ele pesquisasse, poderia facilmente encontrar um tema para falar com ela durante o jantar, mas, ao mesmo tempo, estaria condicionado e já não haveria muito para descobrir. Com isto, quero apenas refletir sobre o facto de criarmos constantemente imagens, conceitos, pensamentos e até mesmo opiniões apenas e simplesmente com base naquilo que vemos através da janela virtual. É excelente podermos conhecer tanto, tão facilmente. É mesmo. Porém, quão melhor será irmos à descoberta, voltarmos ao papel, aos livros, e, até mesmo, à sensação de ir a uma floresta, de sentir a água gelada, de ver o mundo através da nossa própria janela - os nossos olhos -, e podermos apreciar, em primeira mão, sem opiniões, reviews, listas ou ranks

A forma como vemos o mundo pode partir do nosso universo cerebral se assim o permitirmos, equilibrando as ferramentas que construímos ao longo dos séculos e que nos ajudam para tal com o ato mais importante de tudo isto: viver. 


Fotografias: Joana César 


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