16 de outubro de 2018

UMA HISTÓRIA SOBRE CONEXÃO

Quando foi a última vez que respiraste ar puro, aquele ar que quase te perfura de tão cristalino que é? 
Quando foi a última vez que cheiraste a terra molhada, que reparaste no crescimento de uma árvore ou que paraste para observar o mar, tudo isto sem o telemóvel na mão, sem o registares? Antigamente, quando os computadores e a rede surgiram, ficávamos entretidos durante uma hora ou duas para fugir à vida real. Era o recomendado, dentro do saudável. Lembro-me de ler as instruções da Playstation, também, onde era explícito que demasiadas horas em frente ao ecrã podiam ser perigosas. Eu, criança, ficava consciente do perigo - sabia que não o podia fazer em excesso. Agora, temos de sair à rua para fugir à vida virtual. É complicado não estarmos conectados. O pior é que quanto mais estamos conectados a um mundo, menos estamos a outro. Quero conectar-me ao real. Não respirar apenas o ar puro: senti-lo. Quero ler mais e mais, dar a mão às artes, que são a estrada do divino - porque as artes não julgam, não possuem formas, cores, conceitos. Elas existem apenas, e ligam-nos ao universo de uma forma desenvolvida. Abrem-nos a mente para todo o pequeno detalhe. A sensibilidade. A razão. Quanto mais conscientes somos, mais conectados podemos estar. Quero conectar-me, partilhar, gostar. Tudo ao vivo e a cores. 

                                                                                    
                                                                                                  Fotografias: Joana César



13 de outubro de 2018

light of my life, fire of my loins

Algumas regras existem para que as possamos quebrar. Estranho seria se não percebêssemos que nem todas as regras foram feitas para seguir à risca, não questionando o que nos é imposto e apenas seguindo o que foi pensado por outro alguém. É olhando duas vezes que surgem novas vias, ramificações que podem ser exploradas infinitamente. Um campo de futebol pode ser um campo de ténis, se assim o quisermos. A arte é assim, e imita a vida.
































Fotografias: Joana César




5 de outubro de 2018

moments of warmth

Tudo é calmo e o calor alonga o tempo, deixa-o preguiçoso. Nem a proximidade com a água consegue dar o sopro de frescura necessário para abalar os movimentos slow motion. Ouve-se Florence And The Machine, imitando os videoclips em que a senhora Welch dança que nem uma serpentina, imparável e fogosa. Olhamos, atentas, para a água, imaginando crocodilos e criaturas míticas que assombram lagos. Criamos sem parar porque a vida é propícia a isso. Tudo nos inspira. Somos jovens, num dia de verão. 

















 Fotografias: Joana César



4 de outubro de 2018

a forma como vemos o mundo



Ainda me lembro de como era conhecer o mundo sem ser através de um ecrã de telemóvel. Sem passar os dedos de forma veloz num suporte de vidro inanimado. Sem ter acesso imediato, quando quisesse, onde quisesse. As culturas eram quase como algo místico, pertences do seu país que estavam dentro de cofres, inalcançáveis pelos forasteiros. Se queria conhecer mais, tinha de procurar bem, estudar, pesquisar com a ajuda das dezenas de livros que tinha em casa sobre o mundo. Fascículos que adorava colecionar sobre o universo, sobre o mundo, sobre tudo. Perdia-me nas páginas grossas que cheiravam a papel antigo, um dos melhores cheiros de sempre.
Os livros foram os meus melhores amigos de infância e a minha forma principal de saber o que está lá fora, para além das abstratas fronteiras que separam o nosso país do mundo. As ilustrações ajudavam-me a expandir a imaginação e a tentar criar uma imagem real com o que via, quase como uma magia em que de uma folha surgia um cenário real. As fotografias confirmavam o que imaginava. E, assim, construí a imagem que tenho do mundo. 

No quarto ano tive o meu primeiro telemóvel, mas em nada se parecia com um smart phone. Era um telemóvel mais pesado do que o peso total das minhas mãos e os meus pés, juntos. Um telemóvel que só me entretinha através do jogo Bounce. No ensino básico, acredito que no oitavo ano, tive o meu primeiro telemóvel touch. Usava-o principalmente para fotografar. Hoje em dia, pouco mudou. Os usos que faço deste pequeno aparelho não mudaram muito mas tornaram-me mais perto do mundo, com os seus pontos positivos e negativos, claro. 

O telemóvel tem sido a principal ferramenta para sair de casa sem passar da ombreira da porta principal. Conhecer pessoas, dar uma volta ao mundo sem precisar de 80 dias, tudo à distância de um click. De qualquer das formas, adorava que as coisas não se processassem desta forma e que tivessem o seu equilíbrio, algo com que me debato muito no meu dia a dia. Procuro afastar-me desta forma tão próxima que temos uns dos outros. Há um episódio de How I Met Your Mother  em que o Ted tem um encontro marcado com uma rapariga. Contrariando todas as suas ações passadas, o Ted promete a ele próprio que não a iria pesquisar nas redes sociais, de forma a puder descobrir por si próprio como ela era, sem truques e sem condicionamentos. Se ele pesquisasse, poderia facilmente encontrar um tema para falar com ela durante o jantar, mas, ao mesmo tempo, estaria condicionado e já não haveria muito para descobrir. Com isto, quero apenas refletir sobre o facto de criarmos constantemente imagens, conceitos, pensamentos e até mesmo opiniões apenas e simplesmente com base naquilo que vemos através da janela virtual. É excelente podermos conhecer tanto, tão facilmente. É mesmo. Porém, quão melhor será irmos à descoberta, voltarmos ao papel, aos livros, e, até mesmo, à sensação de ir a uma floresta, de sentir a água gelada, de ver o mundo através da nossa própria janela - os nossos olhos -, e podermos apreciar, em primeira mão, sem opiniões, reviews, listas ou ranks

A forma como vemos o mundo pode partir do nosso universo cerebral se assim o permitirmos, equilibrando as ferramentas que construímos ao longo dos séculos e que nos ajudam para tal com o ato mais importante de tudo isto: viver. 


Fotografias: Joana César